quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

As marcas da “era Mamede” no comando do judô!

Varginhense Lucas Corrêa
De 1980 a 2001, o judô brasileiro foi comandado com mãos de ferro pela família Mamede, numa autêntica ditadura. A polêmica administração do mandatário Joaquim Mamede e de seu filho, Joaquim Mamede Jr, foi marcada por acusações de corrupção, irregularidades e desavenças com atletas.
            Aurélio Miguel, primeira medalha de ouro do judô brasileiro, nas Olimpíadas de Seul, não participou de Los Angeles quatro anos antes, devido a desavenças com o então presidente da CBJ e, mesmo para defender seu título, em Barcelona/92, teve sua participação confirmada apenas meses antes.
            Foi assim também com judoca Rogério Sampaio, que precisou do apoio político do então secretário nacional de esportes do governo Collor, Bernard, negociando seu lugar na seleção, para conquistar o ouro em Barcelona.
            Essa época nebulosa do mundo esportivo também deixou marcas no Sul de Minas. Em 1995, na seletiva para Atlanta, o varginhense Lucas Corrêa Reis venceu o titular da seleção brasileira, Flávio Canto, mas teve sua vitória anulada. Desmotivado, afastou-se das competições oficiais por cerca de cinco anos.
            O Jornal PODIUM entrevistou Lucas sobre o assunto. Confira:
Arquivo 2012
Quantas lutas você fez?
Três lutas.
A desclassificação foi na hora, durante o torneio ou depois?
Durante a seletiva. Foi na 1ª rodada da competição; na minha pulley (Chave composta de quatro atletas) foi feito um rodízio, um contra todos, onde sairia apenas um atleta para a próxima rodada, que novamente repetiria o processo até restarem dois finalistas.
Venci todas as lutas, inclusive do principal nome da categoria, Flávio Canto, por finalização (estrangulamento), que na ocasião perdeu os sentidos e desmaiou.
Após a CBJ confirmar que, pelas regras do evento, eu teria me classificado para a próxima pulley e não o Flávio, foi realizada uma reunião entre os dirigentes, árbitros, atletas envolvidos e respectivos técnicos. No meu caso, estava ausente de técnico.
Após ouvir do diretor técnico da CBJ, Silvio Abreu, que o ocorrido foi ZEBRA e que o judoca Flávio Canto não poderia ser eliminado da competição, ficou decidido que teria que lutar novamente com o Flávio em uma melhor de Três.
Tentei me defender, mas não havia acordo da parte da CBJ. Percebi que não tinha escolha, era um campeonato de cartas marcadas! Desmotivado, voltei ao shiai-jo (tatame de competição), uma bela estrutura montada na praia de Copacabana, entreguei as duas lutas a quem de fato já estava predestinado a vencê-las.
A revolta do público e atletas presentes foi meu único apoio. Durante um tempo, disseram “MARMELADA” e muitas VAIAS à CBJ.
Na época, isso era frequente. Você formava o “grupo de oposição”?
Como era muito jovem, 19 anos, me preocupava apenas em treinar, não me envolvia em política, era peixe pequeno. Um grupo de judocas olímpicos, liderado pelo Aurélio Miguel, protestou por muito tempo a ditadura Mamede.
Sentiu revolta?
Sim, me afastei da FMJ e CBJ. No dia da seletiva, o atual presidente da FMJ estava presente e não moveu uma palha a meu favor. No período em que me afastei das competições, dediquei-me à Faculdade, formei-me em Educação Física. Após a saída da Família Mamede do poder, voltei à ativa.
E hoje, qual o sentimento?
Sempre vou me lembrar daquele episódio como o fim de um sonho de me tornar um atleta de alto rendimento, mas superei... Dediquei-me como técnico e pude acompanhar gerações vitoriosas se destacando em competições nacionais e internacionais, preenchendo aquele vazio.
Já superou completamente?
Sim, superei completamente. Hoje sou conhecido como “O Judoca que apagou o Flávio Canto” rs...
Você tem algum relacionamento com o Flávio Canto?
Não. Ele sempre me evita, chega a mudar de direção quando me vê.
A Confederação realmente mudou depois dos Mamede’s?
Sim. A nova CBJ dá oportunidade a todos. Foi feito um trabalho de massificação do judô em todo o país, descentralizando do eixo sul e sudeste. Hoje, temos atletas de todas as regiões do Brasil nas seleções, inclusive judocas de Varginha.
Fale de Antônio Oliveira Costa na FMJ.
Infelizmente, foi um dirigente que só trabalhou em benefício próprio. Fase negra do Judô Mineiro.
Você hoje é um “dirigente esportivo”?
Sim. Sou Vice-presidente da FMJ pelo segundo mandato.
Qual sua influência na FMJ?
Após assumir a diretoria, muitos clubes e academias do Sul de Minas voltaram ao senário do Judô Mineiro. Faltava a confiança, que foi perdida nas gestões anteriores. Vários eventos da FMJ de grande porte foram sediados por cidades da nossa região.
Matéria publicada na Edição 44 do Jornal PODIUM, em 07 de fevereiro de 2014.

Um comentário:

  1. Flávio Canto, uma vergonha nacional e para o Judô mundial. Antiético, sem alma esportiva. Deveria devolver as ''medalhas'' aos comitês e tirar o kimono para começar a dar qualquer exemplo aos jovens. Deveria se redimir em rede mundial, assim como se promoveu sem escrúpulos aos olhos do mundo e principalmente se redimir com o Lucas que era um monstro de lutador, que aplicava os ippons mais complexos com precisão cirúrgica e com semblante de um iluminado, sem esforços afobados. Cada ippon era uma verdadeira obra de arte que nenhum atleta olímpico atualmente consegue sequer chegar perto de conseguir aplicar. Tive a honra e o privilégio de ver isso. Flávio Canto deveria ter deixado o Brasil, o mundo e o Judô ver isso também e não o seu judozindo de m. Uma pena que na época não se tinham tantas câmeras quanto hoje, senão esse Flávio Canto não teria a menor chance com seu judozindo perna de pau. O verdadeiro Caminho Suave do Judô reside na pessoa de Lucas Corrêa Reis. Flávio Canto, vergonha. Some.

    Assinado: Rafael Reis

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